05 Janeiro, 2012

AQUILES SEM TARTARUGA


A relação entre a velocidade e a abertura é um dos elementos básicos da fotografia. É com base nessa relação que tanto é possível fabricar corpos arrastados no espaço (por exemplo, o rasto fantasmagórico de uma pessoa em movimento ou, de noite, os faróis de um carro numa linha contínua) como, em sentido contrário, congelar um corpo em movimento.
Nascido em 1903, Harold Edgerton foi o grande pioneiro desta última técnica, graças ao uso da luz estroboscópica. São célebres as suas imagens de uma bala congelada no ar no momento em que atravessa uma maçã ou uma gota de leite a salpicar quando bate no fundo. Em 1987, três anos antes de morrer, a National Geographic dedica-lhe um artigo: "The man who made time stand still".
Eu fico fascinado com esta imagem da bala parada e da explosão da maçã. E não penso especialmente no seu belíssimo efeito estético. Refiro-me exactamente à possibilidade de assistirmos a um fenómeno físico imperceptível a olho nu devido a condicionalismos de natureza temporal: a velocidade.
Mas o que é fascinante na percepção que temos de uma maçã rasgada por uma bala, assim como da bala que rasga a maçã, tornar-se-ia um pesadelo se pudéssemos congelar mentalmente os fenómenos dos quais são feitas as nossas vidas. As nossas vidas são feitas de construções mas também de destroços, explosões, desperdícios, vácuos, pequenos nadas. Se pudéssemos assistir, mentalmente, a tudo isso, a vida seria insuportável.
Em 1963, Andy Warhol realiza um filme (Sleep) que consiste apenas em filmar o seu amigo John Giorno enquanto dorme. Uma sequência de 5 horas e 20 minutos em que apenas se vê um homem a dormir. Nada em Warhol me fascina e ainda menos este filme. Mas se nós víssemos a vida nesta escala microscópica, passo a passo, milímetro a milímetro, átomo a átomo, não só não seria fascinante como também distópico. Um horror, portanto. E um horror porque, na vida, os vazios são tão importante como a plenitude, os espaços em branco tão importantes como os espaços ocupados, os silêncios tão importantes como os sons, os esquecimentos tão importantes como as memórias, a velocidade artificial das coisas tão importante como a verdadeira escala temporal em que elas acontecem.
Felizmente, não temos a capacidade mental de uma máquina fotográfica. Uma imperfeição que, como tantas imperfeições humanas, é um verdadeiro luxo.