Foi por acidente que conheci a pintura de Carl Holsöe.
Foi por acidente que entrei na livraria onde, por acidente, calhou vir parar às minhas mãos um livro de pintura exclusivamente dedicado a interiores no qual se encontrava a reprodução de um quadro de um pintor dinamarquês de quem nunca tinha ouvido falar e que, por acidente, vi enquanto o folheava.
Não há qualquer anormalidade em não conhecer um pintor como Carl Holsöe. Não o conhecer não é a mesma coisa do que não conhecer Velasquez, Ticiano, Rembrandt ou Vermeer. E o que não conhecemos será sempre infinitamente maior do que o que não conhecemos. A minha questão não é essa. Simplesmente, não deixa de ser estranho pensar como vivemos sem conhecer o que depois de conhecermos consideramos ser imperdoável não conhecer. Não podemos lamentar não conhecermos o que não conhecemos. A inconsciência é, de facto, redentora ou pelo menos apaziguadora. O que não deixa de ser inquietante é pensar no que não conhecemos e que, se por acaso conhecêssemos, consideraríamos imperdoável não conhecermos.
Repito: o que não conhecemos é sempre infinitamente maior do que o que conhecemos. Que saibamos, pois, aproveitar bem o que conhecemos, e aproveitar bem a inconsciência do que não conhecemos. Felizmente, não é possível termos a consciência do que não temos consciência.

