"Diz-se que o sr. Dias vai mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residência. Damos os parabéns à cidade invicta por tão valiosa aquisição." Camilo Castelo Branco, O Que Fazem Mulheres
Trata-se isto de um excerto de uma notícia de jornal ficcionada por Camilo na qual se informam os leitores do casamento do sr. João José Dias com a exª senhora Ludovina da Glória Pimenta, da sua lua de mel na quinta em Celorico da Beira, propriedade do noivo e, como já vimos, da construção do palacete onde irão residir. João José, enquanto figura, é absolutamente ridicularizado pelo escritor. Um novo rico que fez fortuna no Brasil, comprando posteriormente o título de barão, e homem que, para além de fisicamente repugnante, não passa de um pacóvio ignorante e eloquente exemplo do mais bacoco provincianismo. Ludovina, por sua vez, é uma menina sedenta de bailes, passeios, vestidos, vida social iluminada pela chama do glamour.
Eis, pois, o palacete, como expressão natural da glória social, da vaidade, do orgulho, construído com dinheiro proveniente de um trabalho que não poderia ser mais adverso à sensibilidade estética dos poetas, pintores, escultores, músicos, dinheiro ganho, moeda a moeda, à custa da ambição individual e em nome do mais vil materialismo económico.
Claro que João José e Ludovina são personagens saídas da pena de Camilo. Mas os palacetes que ainda existem hoje por esse país fora são absolutamente reais e resultam muitas vezes de histórias e casamentos como o de João José e Ludovina ou de histórias nas quais as motivações humanas não andam longe das do ridículo casal. Ora é precisamente aqui que vamos encontrar mais uma tremenda ironia histórica. Hoje, são sobretudo esses palacetes que dão beleza às cidades e não os horríveis prédios modernos construídos para armazenar as classes médias que foram emergindo ao longo do século XX. São esses palacetes construídos por ricos pacóvios e mulheres vaidosas que constituem actualmente o mais valorizado património urbano das cidades. São esses palacetes que inebriam os estetas da contemporaneidade e todos aqueles intelectualmente mais profundos que desprezam as classes empresariais e o dinheiro ganho à custa de um empreendedorismo motivado pela ambição e o desejo de riqueza. São esses palacetes que alimentam românticas lutas protagonizadas por muitas pessoas de esquerda e que abominam o grande capital e uma mórbida avidez pelo vil metal, em defesa do património, da identidade, da história, dos valores estéticos.
Eis, portanto, como na origem da identidade, da história, dos valores estéticos, iremos encontrar subterraneamente a estupidez e ambição de João José ou a vaidade e exibicionismo de Ludovina. Na história haverá pouca coisa linear. A história está muito longe de ser uma aberta e rectilínea alameda onde poderíamos caminhar calmamente de olhos fechados sem nos perdermos. A história, pelo contrário, é uma espécie de bairro medieval feito de linhas tortas. Esse é precisamente um dos seus grandes encantos.
Eis, pois, o palacete, como expressão natural da glória social, da vaidade, do orgulho, construído com dinheiro proveniente de um trabalho que não poderia ser mais adverso à sensibilidade estética dos poetas, pintores, escultores, músicos, dinheiro ganho, moeda a moeda, à custa da ambição individual e em nome do mais vil materialismo económico.
Claro que João José e Ludovina são personagens saídas da pena de Camilo. Mas os palacetes que ainda existem hoje por esse país fora são absolutamente reais e resultam muitas vezes de histórias e casamentos como o de João José e Ludovina ou de histórias nas quais as motivações humanas não andam longe das do ridículo casal. Ora é precisamente aqui que vamos encontrar mais uma tremenda ironia histórica. Hoje, são sobretudo esses palacetes que dão beleza às cidades e não os horríveis prédios modernos construídos para armazenar as classes médias que foram emergindo ao longo do século XX. São esses palacetes construídos por ricos pacóvios e mulheres vaidosas que constituem actualmente o mais valorizado património urbano das cidades. São esses palacetes que inebriam os estetas da contemporaneidade e todos aqueles intelectualmente mais profundos que desprezam as classes empresariais e o dinheiro ganho à custa de um empreendedorismo motivado pela ambição e o desejo de riqueza. São esses palacetes que alimentam românticas lutas protagonizadas por muitas pessoas de esquerda e que abominam o grande capital e uma mórbida avidez pelo vil metal, em defesa do património, da identidade, da história, dos valores estéticos.
Eis, portanto, como na origem da identidade, da história, dos valores estéticos, iremos encontrar subterraneamente a estupidez e ambição de João José ou a vaidade e exibicionismo de Ludovina. Na história haverá pouca coisa linear. A história está muito longe de ser uma aberta e rectilínea alameda onde poderíamos caminhar calmamente de olhos fechados sem nos perdermos. A história, pelo contrário, é uma espécie de bairro medieval feito de linhas tortas. Esse é precisamente um dos seus grandes encantos.
