11 Janeiro, 2012

IMUNIDADE



«Escrevia livros tristes para pessoas alegres», dizia Nabokov a respeito de Tchekov. O humor, por essência, é ácido, cáustico, desmistificador, destruidor. Rir é anular a aparente seriedade ou normalidade das coisas, é fazer estalar o verniz que esconde umas unhas doentes ou que disfarça mesmo a ausência de unhas. Rir é despir, desmaquilhar, desligar repentinamente a música de fundo que dá ambiente onde o ambiente pura e simplesmente não existe.
O humor tchekoviano não é assim. Um humor lúcido, claro, pois todo o humor é feito de lucidez, mas, em vez de uma lucidez destruidora, vamos encontrar uma lucidez feita de melancólica bonomia perante a falha, o limite, a presença da ausência, o irónico desencontro com a felicidade. É, por isso, um humor pudico e que olha com respeito para o que é risível pois o que faz rir coincide com o que faz chorar.
Neste sentido é um humor saudável. Nabokov tem toda a razão ao dizer também que só as pessoas alegres conseguem perceber a tristeza dos seus livros. Porque se trata de uma alegria contida, de uma alegria serena perante a iminência da falha, muito diferente, portanto, da alegria do indigente.
Os tristes livros para pessoas alegres de Tchekov fez-me lembrar o facto de um realizador como Woody Allen ter feito um filme profundamente angustiante e dramático como Intimidade (sem esquecer Matchpoint) ou de um realizador como Bergman ter feito um filme cómico como Sorrisos de uma Noite de Verão.
Não será para todos a capacidade de conter a depressiva tristeza com uma lúcida alegria mas também a de conter a torrencial alegria com uma lúcida tristeza. Enfim, a lucidez, tout court, será sempre um díficil e arriscado dom apenas ao alcance de quem olha para vida como um corpo auto-imune.