Clarence White | Mãe e Filho
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!
Alberto Caeiro, Poema XXVI
Em dias de luz perfeita e exacta, a linguagem é uma doença, o vírus vindo do espaço, de que falava William S. Burroughs. Um vírus que se instala e reproduz no cérebro para depois se instalar no mundo, não para nos aproximar mas para nos afastar cada vez mais dele. Como um martelo, um alicate ou um abre-latas, a linguagem não passa de uma ferramenta. Vale o que vale. Eu preciso de uma ferramenta para resolver problemas, para encontrar soluções mas, em dias de luz perfeita e exacta, recorrer à linguagem e aos conceitos é como entrar numa loja de ferragens em vez de passear num jardim.
O que significa dizer que uma coisa é bela? O que é a beleza? Dirá Platão que uma coisa é bela, seja uma paisagem, um fruto, uma mulher ou um edifício porque, enquanto vãs e frágeis realidades sensíveis, participam da ideia de beleza. Ideia de beleza que é una, ou seja, não há várias ideias de beleza. Há uma ideia de beleza como há uma ideia de "número" ou de "triângulo".
Muito bem. Mas o que há de comum entre a serra de Sintra, um quadro de Vermeer, uma mulher, uma abadia em ruínas, o segundo andamento do concerto para piano de Ravel ou uma laranja numa fruteira com mar ao fundo? O que há de comum entre a essência vegetal de uma árvore e a essência musical de uma sonata? O que há de comum entre o rosto de uma mulher e um destroço de pedras condenadas pelo peso dos séculos? O que há de comum entre o mar e um insecto que trepa uma flor? Nada. No entanto, reduzimos tudo à categoria de beleza. Mas o que é beleza? Que cor tem a beleza? Que cheiro tem a beleza? Que forma tem a beleza?
Desde Platão que confundimos a estética com a epistemologia. Mas em dias de luz perfeita e exacta, confundir a estética com a epistemologia significa transformar a nossa alma no gabinete de Fausto, feito de ferramentas e de sombras que infectam os dias.
Nada como arejar as casas, sobretudo em dias de luz perfeita e exacta, para combater os vírus que nos põem doentes.
