29 Dezembro, 2011

DE OLHOS BEM FECHADOS

                                                                      Julia Margaret Cameron

Houve tempos em que para mim era importante saber se uma pessoa era de esquerda ou de direita, se era religiosa ou ateia, se lia Marx ou Corin Tellado, se era apreciadora de arte holandesa ou de telenovelas mexicanas, se era egiptólogo ou costureirinha da sé. Nos meus 20, 30 ou 40 anos, acreditava serem  importante critérios para, como animais que farejam mais do que pensam, nos podermos orientar em relação aos outros.
Hoje, aos 50 anos, já nada disso me interessa. A verdade de uma pessoa começa no momento em que fecha os olhos para adormecer. Nós somos o que dormimos. Ou, como diria o bardo inglês, somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos.
O sono não tem ideologia, religião, mentalidade, moral ou profissão. Acordar é apenas regressar diariamente ao palco onde, como actores cómicos ou dramáticos, conhecemos de cor o papel que iremos desempenhar.