Só pode ser um vírus que por aí anda. Foram várias as vezes que, nos últimos dias, ouvi o tão filosófico "As desculpas não se pedem, evitam-se". Ainda hoje foi uma contínua a dizê-lo para um aluno que deve ter feito alguma. A frase é bonita e soa bem mas não faz sentido. As pessoas sabem que a desculpa é o desfazer da culpa mas esquecem que a culpa é inerente à nossa condição, coisa difícil de desfazer. Nós erramos, não porque queremos errar mas porque não sabemos que vamos errar ou porque julgamos saber que não vamos errar. Só conhecemos o sabor da maçã depois de a termos comido do mesmo que, entretanto, já não conseguimos fingir que não o conhecemos. Há, admito, duas maneiras de evitarmos a culpa e de nos tornarmos inexoravelmente eficazes: atarem-nos as mãos e os pés e taparem-nos a boca, ou sermos lobotomizados. Assim já ninguém teria de pedir desculpa a ninguém, o que, convenhamos, seria um tremendo aborrecimento, o aborrecimento de um mundo sem culpa. A culpa é má mas é bom poder depois desfazê-la. Pior do que errar seria mesmo não poder errar. A inteligência, maior ou menor, é uma qualidade partilhada por seres humanos, anjos e deuses. Os erros, esses, são visceralmente nossos.